A “nova política” de Maria do Carmo esconde sobrenome, patrimônio milionário e velhas conexões

Nome de urna omite o sobrenome Lins de Albuquerque; candidata do PL declarou R$ 118,4 milhões em bens e integra família com décadas de atuação empresarial e política no Amazonas

A candidata do PL ao Governo do Amazonas apresenta-se ao eleitorado como “Professora Maria do Carmo” e sustenta um discurso de renovação, combate à chamada “velha política” e mudança na administração pública. Entretanto, informações eleitorais, empresariais e reportagens publicadas ao longo das últimas décadas revelam conexões familiares e políticas que colocam essa narrativa em discussão.

O nome completo da candidata é Maria do Carmo Seffair Lins de Albuquerque. Na urna, porém, ela aparece como “Professora Maria do Carmo”, denominação permitida pela legislação eleitoral e escolhida pelos próprios candidatos no momento do registro.

A ausência do sobrenome Lins na identificação eleitoral chama atenção porque a família possui longa participação na política e no setor empresarial amazonense.

Marido foi diretor do DNER e teve prisão preventiva decretada em processo antigo

Maria do Carmo é casada com Wellington Lins de Albuquerque, presidente do Instituto Metropolitano de Ensino e um dos responsáveis pelo crescimento do Grupo Fametro.

Em reportagem publicada em 21 de outubro de 1997, a Folha de S.Paulo informou que Wellington, então diretor do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem no Amazonas (DNER-AM), estava inscrito duas vezes no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal, o Cadin.

Outra publicação da Folha, de 20 de dezembro daquele ano, registrou que Wellington havia tido a prisão preventiva decretada por não responder a um processo por estelionato. Os fatos ocorreram há quase três décadas e devem ser apresentados com essa delimitação histórica. As matérias consultadas não informam o resultado definitivo desse processo.

A nomeação de Wellington para o DNER-AM também foi associada politicamente ao irmão dele, o deputado federal Átila Lins.

Cunhado está no PSD e integra grupo político de Omar Aziz

Átila Lins é deputado federal e candidato à reeleição pelo PSD. Em 2026, integra a chapa proporcional do partido de Omar Aziz, adversário de Maria do Carmo na corrida pelo Governo do Amazonas.

A relação familiar não significa, por si só, que Maria do Carmo e Átila Lins atuem no mesmo projeto eleitoral. Politicamente, estão em lados diferentes na disputa majoritária. Ainda assim, o vínculo mostra que a família Lins de Albuquerque mantém presença no centro das articulações políticas do estado há décadas.

A própria Maria do Carmo também não estreia agora em eleições. Em 2022, foi candidata a primeira suplente de Arthur Virgílio Neto na disputa pelo Senado. Em 2024, concorreu a vice-prefeita de Manaus na chapa encabeçada por Capitão Alberto Neto.

Fametro possui contratos do Fies e bolsas do Prouni

Embora esteja filiada ao PL e alinhada ao campo conservador, Maria do Carmo comanda uma instituição privada que participa de programas federais de acesso ao ensino superior.

Levantamento publicado pela plataforma Fies Fácil registra 740 contratos ativos do Fies e 48 bolsas do Prouni vinculados à Fametro em Manaus, sendo 32 integrais e 16 parciais.

É necessário fazer uma distinção histórica: o Fies foi criado em 1999, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e posteriormente ampliado em diferentes administrações. Já o Prouni foi instituído em 2004 e transformado em lei em 2005, durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

A participação da Fametro nesses programas mostra que parte da expansão da instituição está ligada a políticas federais de financiamento e concessão de bolsas. Entretanto, sem os valores efetivamente repassados, não é possível afirmar quanto esses contratos representam no faturamento do grupo.

Patrimônio passou de R$ 14,7 milhões para R$ 118,4 milhões

Maria do Carmo declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 118.473.769,48 em 2026. O valor coloca a candidata como a mais rica na disputa pelo Governo do Amazonas e a segunda mais rica entre os candidatos aos governos estaduais do país.

Em 2022, quando concorreu como suplente ao Senado, ela havia informado R$ 14.775.247,76. Em valores nominais, o crescimento foi de aproximadamente 702% em quatro anos.

Considerando a correção pela inflação, levantamento da Folha de S.Paulo calculou um aumento de 571,4%. A maior parcela do patrimônio atual corresponde a R$ 92 milhões em créditos com pessoa jurídica.

Em resposta à Folha, Maria do Carmo afirmou que a evolução patrimonial resulta do reinvestimento de lucros e dividendos em suas próprias empresas, além da abertura de cursos, novas unidades educacionais e da expansão do Grupo Fametro.

Não há, nas fontes consultadas, indicação de irregularidade na declaração. O crescimento, porém, tornou-se um tema legítimo de fiscalização pública por envolver uma candidata ao comando do Governo do Amazonas.

Santa Casa acumula mudanças de prazo

O Grupo Fametro arrematou a Santa Casa de Misericórdia de Manaus em novembro de 2019 por R$ 9,3 milhões. Na ocasião, uma publicação da própria instituição informou que o hospital universitário seria implementado até o fim de 2020.

Ainda em 2019, Wellington Lins apresentou 2022 como previsão de entrega. Em entrevista concedida em 2020, Maria do Carmo também afirmou que pretendia inaugurar o hospital universitário naquele ano.

Os prazos não foram cumpridos. Em 2022, após a apresentação de um novo projeto arquitetônico, a conclusão passou a ser estimada em mais dois anos e meio.

Em agosto de 2025, Maria do Carmo estabeleceu uma nova expectativa: entregar a Santa Casa em 2027. A candidata e o Grupo Fametro alegam que a complexidade do restauro e a necessidade de autorizações de órgãos como o Iphan e o Implurb interferiram no cronograma.

O projeto prevê a instalação de aproximadamente 140 consultórios e atendimento pelo Sistema Único de Saúde, além de serviços privados e atividades acadêmicas. Até agosto de 2026, contudo, o hospital universitário ainda não havia sido entregue.

Hotel Tropical também teve inauguração adiada

O antigo Hotel Tropical foi arrematado pelo Grupo Fametro em 2020 por R$ 91 milhões. Em diferentes momentos, o empreendimento teve previsões de reabertura anunciadas para 2022, para o réveillon de 2024 e, posteriormente, para 2025.

O grupo anunciou investimento estimado em R$ 250 milhões na revitalização e firmou parceria com a Marriott International para operar o empreendimento sob a bandeira Tribute Portfolio.

Apesar do avanço informado nas obras, a reabertura também sofreu sucessivos adiamentos. Durante o debate eleitoral realizado em agosto de 2026, Maria do Carmo foi questionada sobre a falta de entrega do Hotel Tropical e da Santa Casa. Ela respondeu que as intervenções são realizadas com recursos privados.

Discurso de renovação entra em confronto com trajetória

Os dados mostram que Maria do Carmo não pode ser analisada apenas como uma candidata recém-chegada à política. Sua trajetória está ligada a um dos maiores grupos educacionais privados do Amazonas, a programas federais de financiamento estudantil, a um patrimônio superior a R$ 118 milhões e a uma família com presença política de várias décadas.

O debate central não está na legalidade do nome escolhido para a urna nem na existência de parentes envolvidos na política. A questão é se o discurso de rompimento com a “velha política” corresponde à trajetória empresarial, familiar e eleitoral apresentada pela própria candidata.

Também pesam nessa avaliação os sucessivos adiamentos da Santa Casa e do Hotel Tropical, empreendimentos usados por Maria do Carmo como exemplos de sua capacidade de gestão.

Cabe agora à candidata explicar ao eleitorado como concilia a promessa de renovação com esses vínculos e esclarecer os cronogramas das obras apresentadas como símbolos de sua atuação privada.

O espaço permanece aberto para manifestações de Maria do Carmo Seffair, Wellington Lins de Albuquerque, Átila Lins e do Grupo Fametro.

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